terça-feira, 4 de setembro de 2012

13 (only if we're drinking can you see my spark)


pequena morena, não te escrevo desde o primeiro de junho. de fato te escrevi nesse último mês mais do que nesse ano todo, mas para dizer o casual, o superficial, aquilo que me permites sentir. meu coração vai muito além, mas o fato é que eu parei de te derramar palavras porque encontrei um novo amor. um amor que me amou de imediato, que me cuidou e remediou. que chegou avassalador e curou as feridas que deixastes, que até elas se sentiram abandonadas na tua ausência, pequena. meu novo amor é grande, e meu novo amor não me basta. tu bastastes. mas meu novo amor não me sangra, e tu morena, me sangrastes a hemorragia. me doestes no fundo d'alma cativa. eu sei que não usas salto alto mas calçavas um agulha no dia em que subiu em cima do meu ego. meu novo amor me apaziguou, me devolveu a esperança de se ser feliz pelo que se é, de não ter jamais que correr pra tentar alcançar teu ideal falho de mulher. o amor novo me beijou os olhos e eu beijei suas mãos  e disse adeus. pois que o novo amor me fez menos triste que tu. mas tu, com teu sangue e tuas feridas, tu, com tuas ausências e teu salto agulha, tu me fizestes mais feliz.

pequena morena, volto a escrever para contar que enganei-me sobre ti. hoje eu te entendo, te compreendo, te vejo limpo. enxergo teu ser nítido, sinto tua transparência. não reconheço mais o vilão de outrora, pelo contrário, vejo minha menina sorridente com a cabeça cheia de problema e um coração maior que si, teu cuidado irresponsável com meu amor remendado, teu cheiro de alecrim e manhã de domingo que enche de paz meu existir, teu tom de dúvida e hesitação que alimenta minhas tristezinhas de pôr-do-sol. afinal, esse sol alaranjado de fim do dia sempre vai me lembrar como és linda ao ir embora. tua ausência adormecida já faz parte de mim intrisicamente, teus olhares de desejo reprimido  devoram-me sem querer, o que mais falar de ti? posso te conversar por dias seguidos, aunque eventualmente me faltem palavras, sempre terei algo a dizer. e é quando as palavras, fujonas que são, me deixam em apuros, que sinto precisar te falar com todo o meu corpo, com os olhos, boca fechada, as mãos que temem em se aproximar, pulsar quente em cada extremidade de mim. o conversar se materializa e forma nossa bolha, nosso oasis secreto, tão presente nesse passado cheio de marcas. lembra que discutimos o que era estar em paz? és parte de tudo que eu conheço de paz no meu coração. minha busca por ela tem fundações em ti, pequena. me desculpa te dar essa responsabilidade, preferia eu não sentir esse furacão atemporal que sempre põe abaixo minhas construções, eis que elas são falhas e não posso esconder tamanho sentir. é que já me é tão automático negar teu amor, que é quase como se ele não existisse. mas agora é diferente, agora tenho a chave do teu fecho. estamos bêbadas de combustível. bastaria um spark para explodirmos.